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Paraíba enfrenta uma das piores crises hídricas da história

A rotina da aposentada Maria Laura Rogério começa cedo. Ainda é madrugada quando ela levanta e corre para o quintal cheia de esperança de encontrar água nas torneiras. Ansiosa, tenta ser rápida. O temor é que a água vá embora antes dela conseguir armazenar o suficiente para preparar as refeições, tomar banho e lavar a roupa da família, que mora no município de Santa Rita, onde o problema se repete diariamente. No Dia Mundial da Água, comemorado ´neste domingo 922), esse é o cenário da Paraíba, que enfrenta uma de suas piores crises hídricas dos últimos 50 anos.
A rotina da aposentada Maria Laura Rogério começa cedo. Ainda é madrugada quando ela levanta e corre para o quintal cheia de esperança de encontrar água nas torneiras. Ansiosa, tenta ser rápida. O temor é que a água vá embora antes dela conseguir armazenar o suficiente para preparar as refeições, tomar banho e lavar a roupa da família, que mora no município de Santa Rita, onde o problema se repete diariamente. No Dia Mundial da Água, comemorado hoje, esse é o cenário da Paraíba, que enfrenta uma de suas piores crises hídricas dos últimos 50 anos.
O problema se multiplica em outras regiões do Estado, sobretudo no Sertão e Cariri, onde falta água até para beber. A crise hídrica é resultado da falta de chuvas, mas também de ações por parte dos governantes. São quatro longos anos de estiagem, 195 municípios em situação de emergência, 160 abastecidos por carro-pipa e 49 em racionamento de água. Nesse período, pastagens e rebanhos foram dizimados. A situação é tão crítica que a figura simbólica do gado morto à beira da estrada já não impressiona mais.
No Sertão, água é raridade. No Brejo e Agreste, a população enfrenta racionamento. No litoral, apesar do reservatório está com 81,2% de sua capacidade, falta água nas torneiras com frequência em algumas localidades da Região Metropolitana de João Pessoa, apesar de não se falar oficialmente em racionamento. Em Santa Rita, por exemplo, onde mora dona Laura, a falta de água é um problema constante, que deixa os moradores revoltados. Em João Pessoa, em bairros como Torre, Cristo e Cruz das Armas, a situação se agravou nos últimos anos.
Boqueirão: um gigante em alerta
Em Campina Grande e municípios vizinhos, o abastecimento de água também virou uma incerteza. Desde dezembro do ano passado, a população sofre com o racionamento. O açude Epitácio Pessoa, mais conhecido como Boqueirão, está com 21% de seu volume total, segundo a Aesa. Embora não esteja ainda em situação crítica, o volume não garante abastecimento por muito tempo caso não haja chuvas. Diante dessa realidade, o jeito foi retomar velhos hábitos, como manter baldes e tonéis na cozinha e no banheiro para armazenar água e tomar banho de caneca.
O racionamento atinge cerca de um milhão de pessoas que moram em Campina e em outros municípios do Agreste, segundo a Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa). A interrupção no fornecimento de água acontece sempre aos finais de semana, especificamente no período que vai das 17h do sábado às 5h da segunda-feira. Quando a medida foi adotada, a Cagepa anunciou que o racionamento deveria perdurar até novembro deste ano, caso as chuvas continuem irregulares.
Com o objetivo de refletir sobre a situação do açude Boqueirão e do racionamento em Campina Grande, o ambientalista Pedro Aprígio pretende reunir cerca de 400 pessoas para um abraco coletivo no açude. “O que a gente pretende é refletir sobre a fase crítica que enfrentamos no que diz respeito ao abastecimento de água”, declarou. O ambientalista defende um racionamento voluntário e não forçado, como está sendo feito atualmente. “A população tem que entender que, se cada um não fizer sua parte, vamos continuar com o açude em vermelho”, frisou Aprígio.
A reportagem tentou contato com o secretário de Recursos Hídricos, do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia, João Azevedo Lins, mas ele não atendeu às ligações, para falar sobre as ações e obras do Estado para minimizar os efeitos da seca.
Maria Laura Rogério mora em Santa Rita e acorda todos os dias de madrugada na esperança de encontrar água nas torneiras. (foto: Francisco França)
Reservatórios em situação crítica 
Dados da Agência Executiva de Gestão das Águas do Estado da Paraíba (Aesa) mostram que dos 125 reservatórios existentes, 41 deles estão com menos de 5% do seu volume total. Alguns estão completamente zerados, a exemplo do açude Jandaia, em Bananeiras; Taperoá II, em Taperoá; e Serrote, em Monteiro. Outros 39 reservatórios estão em observação, com sinal de alerta, e têm menos de 20% do seu volume total. Outros 45, incluindo o que abastece João Pessoa e cidades vizinhas, estão com capacidade armazenada superior a 20% do volume total. Não há, no momento, nenhum reservatório sangrando.
A situação dos reservatórios tem reflexo direto na vida diária do paraibano, embora muitos ainda não tenham consciência de que é preciso economizar água. Enquanto uns não se importam em lavar carros e calçadas com mangueira, que é um claro exemplo de desperdício, outros têm dificuldade de encontrar água para beber. Segundo Rodrigo Bittencourt, um dos diretores da ONG Milagre Sertão, o cenário que se observa nos municípios do interior é preocupante.
Com a falta de chuvas, muitas famílias sofreram perdas nas plantações, único meio de sobrevivência, e tiveram que ir para o Sudeste em busca de emprego, conforme relatou Bittencourt. “Infelizmente ainda temos muitos casos desse tipo. Os homens vão embora e deixam as mulheres e filhos em casa”, declarou. Segundo ele, a falta de técnicas de sobrevivência para períodos de seca acaba ‘expulsando’ os paraibanos de casa.
Embora a situação dos reservatórios da Paraíba não seja boa, há um certo otimismo por parte do gerente de meteorologia da Aesa, Alexandre Magno. Segundo ele, as condições atmosféricas são favoráveis à ocorrência de chuvas nos próximos 40 dias. O gerente explicou que o baixo volume dos reservatórios é consequência da estiagem dos últimos anos, mas que esse quadro pode ser revertido, desde que haja chuva. Mas não basta chover, é preciso que a água caia em locais estratégicos, ou seja, perto dos reservatórios. “O volume baixo é consequência do consumo, da evaporação e também da falta de recarga dos últimos anos”, explicou.
De acordo com Magno, é preciso levar em consideração também o fato de que alguns açudes foram construídos para abastecer uma localidade por um ou dois anos. “Nesses casos, é normal que estejam com volume baixo”, frisou. Segundo o gerente da Aesa, as chuvas este ano estão mais regulares, o que contribui para a recarga progressiva dos reservatórios. O período mais propício para a ocorrência de chuvas na Paraíba é entre a segunda quinzena de março e o final de abril.
Ele destacou que os reservatórios que abastecem a região do litoral estão com capacidade acima dos 70%, o que representa uma situação confortável, se é que esse termo pode ser usado diante da crise hídrica que assola o Estado. O Gramame/Mamuaba está com 81,7% de seu volume; e Marés está com 94%. Segundo Magno, o problema é mais forte na região do semiárido, que inclui municípios do Sertão, Cariri e Curimataú, onde os relatos de perda de rebanho e plantação se multiplicam. Nessas localidades, o abastecimento de água está sendo feito por carros-pipa.
O açude Lagoa do Arroz, em Cajazeiras, está com 10,1%; Mãe D’Água, em Coremas, com 19,3% e Mãe D’Água -canal da redenção com 10%; o açude de Acauã (Argemiro de Figueiredo), em Itatuba, está com 18,7%. Os dados estão atualizados até o último dia 20.
Jornal da Paraíba

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