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Ruas deficientes dificultam muito a vida de cadeirantes

Lugares espaçosos, acessíveis e adaptados são necessidades de quem possui alguma deficiência motora. O grande desafio dessas pessoas é encontrar essa realidade ao abrirem as portas de suas casas e se depararem com um mundo que ainda não está preparado para atendê-las. Lidar com a falta de rampas, calçadas desniveladas, buracos nas ruas e ausência de estrutura nos transportes públicos são os principais transtornos que elas vivenciam diariamente. O estudante Lindemberg Pereira do Nascimento, 26 anos, mais conhecido como Gustavo, passou a conviver com essa rotina há dez anos. Ele foi atingido por um tiro no tórax que o deixou paraplégico e totalmente dependente de uma cadeira de rodas para se locomover.

No interior da residência onde mora, de apenas dois cômodos, no bairro da Palmeira, em Campina Grande, ele já não sente mais nenhuma dificuldade de locomoção. O problema está nas ruas, onde é preciso que ele faça manobras arriscadas para driblar os obstáculos que surgem na sua frente. Como depende do transporte público para se deslocar, a situação se agrava ainda mais. Para conhecer de perto essa realidade, a REPORTAGEM DO JORNAL DA PARAÍBA acompanhou o trajeto feito por Gustavo, da sua casa até o Centro da cidade em um ônibus da linha 111 e presenciou alguns dos inúmeros empecilhos enfrentados diariamente por ele.

O primeiro deles é um batente que dá acesso à calçada da sua casa. É necessário que ele empine a cadeira e use apenas as rodas traseiras para conseguir chegar até a rua, que é uma ladeira e o obriga a repetir a manobra. O ponto de ônibus não fica muito longe de onde ele mora e a espera também não é longa, cerca de 15min. O problema é conseguir entrar em um deles de maneira cômoda. Ao chegar o coletivo, Gustavo teve que recorrer aos vizinhos para conseguir fazer o embarque. Nele, havia a indicação de que era adaptado para deficientes, mas o elevador utilizado para fazer o deslocamento estava quebrado.

“Tenho que pedir a ajuda dos amigos ou do motorista para conseguir entrar ou descer do ônibus, porque na maioria deles o elevador não funciona e é necessário que alguém venha dar uma forcinha. Além disso, o botão de pedir parada também é quebrado e eu tenho que contar com a solidariedade de outro passageiro quando quero descer. Com o tempo fui aprendendo a não ter mais vergonha de pedir. Isso também acontece à noite, quando vou para a escola Solón de Lucena, onde estudo o 8º ano do ensino fundamental. Ainda bem que tenho amigos”, desabafou Gustavo.

O trajeto até o Terminal foi sem percalços, durou em média 15min e o motorista ajudou a retirar Gustavo do ônibus. A dificuldade maior foi conseguir transitar pelo local sem esbarrar nas pessoas. Ao pegar outro ônibus da mesma linha para desembarcar no Centro, em frente à antiga Telemar, foram identificados os mesmo problemas.

Ao descer no centro, as dificuldades só aumentam. Gustavo precisa sair desviando dos carros que passam nas ruas porque as calçadas não oferecem condições adequadas para sua locomoção. “Tem hora que é melhor me arriscar na rua do que ir pelas calçadas. Ainda bem que tenho a habilidade de empinar a cadeira e consigo atravessar, mas é muito difícil me locomover aqui no Centro”, relatou. Na volta para casa, Gustavo pega o terceiro ônibus, também da linha 111, que indicava ser adaptado, só que mais uma ele se depara com os mesmos problemas. Ele diz já estar acostumado com essa situação, mas cobra do poder público melhorias para ele e para as outras pessoas que enfrentam esses mesmos transtornos todos os dias na cidade.

STTP garante fiscalização dos ônibus


Os problemas apontados por Gustavo e por outras pessoas que apresentam alguma dificuldade motora, e fazem uso dos transportes públicos, são recorrentes em Campina Grande. Diariamente circulam na cidade uma média de 198 ônibus, sendo 84 deles adaptados para cadeirantes, de acordo com a Superintendência de Transportes Públicos (STTP). O órgão é responsável pela fiscalização dos veículos e admite haver certa dificuldade em gerir o funcionamento dos elevadores, porque eles são equipamentos sensíveis que se quebram devido à falta de homogeneização das ruas de Campina.

“Fazemos a vistoria desses transportes para que tenhamos certeza do bom funcionamento desses equipamentos. Naturalmente, todos os dias têm quebras porque eles são hidráulicos e a indicação é que eles circulem em uma pavimentação homogenia. Como em Campina Grande ela é heterogênea, a trepidação provoca a trava dos elevadores e prejudica esse funcionamento. Temos o cuidado de fazer com que as empresas façam a manutenção desses transportes, mas como nós não oferecemos esse tipo de pavimentação elas se tornam asperosas com as nossas exigências”, explicou a gerente de transportes da STTP, Araci Brasil.

O assessor de comunicação do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Campina Grande (Sitrans), Fernando Soares, reafirma que os equipamentos quebram devido à pavimentação da cidade e acrescenta que as empresas fazem manutenções diárias nos ônibus para consertar esses problemas, mas são eles voltam a ser danificados por conta da trepidação das ruas. “Há uma preocupação em fazer com que esses veículos passem por uma manutenção todos os dias, porque temos o passageiro como o nosso cliente e queremos tratá-lo bem”, disse.

Segundo a STTP, ao ser constatado que há problemas dessa natureza, uma equipe é direcionada para fazer a vistoria dos veículos. Se for verificada alguma irregularidade, é solicitado que a empresa faça os reparos necessários e depois a equipe retorna para saber se eles foram feitos. Caso a empresa não tenha cumprido as exigências do órgão, é notificada e submetida a pagar uma multa que varia entre R$ 100 e R$ 380.

Plano de mobilidade é alternativa

Para amenizar as dificuldades enfrentadas por quem apresenta necessidades especiais de locomoção, o Plano Diretor de Mobilidade Urbana do Município de Campina Grande (PlanMob-CG) se lança como uma alternativa que irá melhorar qualitativamente a vida dessas pessoas. Entregue pelo prefeito Romero Rodrigues ao Ministério das Cidades na ultima terça-feira, o plano prevê a criação de uma Comissão de Acessibilidade que irá trabalhar no planejamento de obras e ações que possibilite a criação de espaços mais acessíveis na cidade.

De acordo com a coordenadora técnica do Plano de Mobilidade Urbana (PLAMOD/CG), a engenheira Valéria Barros, essa comissão irá avaliar se as obras que estão sendo feitas na cidade atendem às necessidades que quem possui dificuldades para se locomover, sobretudo na área central. “Com o Plano de Mobilidade nós visamos promover a humanização do Centro, que será feita alargando as calçadas, fazendo rampas e melhorando as travessias de pedestres. Essa comissão vai avaliar se as construções estão adequadas para atender essas demandas”, pontuou.

Ainda de acordo com a coordenadora, as calçadas não poderão ser feitas com um piso que derrape e sem degraus para que os deficientes e as pessoas com capacidade de locomoção reduzida trafeguem com mais segurança. “Essas são ações que a modernidade e a civilidade têm exigido. É uma questão de respeito ao próximo que e a sociedade já estava clamando por isso”, comentou. Já com relação à acessibilidade nos transportes públicos, o plano estabelece que todos os veículos tenham equipamentos de acessibilidade, segundo a Superintendência de Trânsito e Transportes Públicos (STTP), e a meta do órgão é atender a essa determinações o quanto antes.

O projeto é de autoria do Poder Executivo, fruto de um esforço conjunto de técnicos das Secretarias de Planejamento, de Obras, de Serviços Urbanos e da (STTP), em parceria com a Procuradoria Geral do Município (PGM). Ele propõe uma série de intervenções para minimizar os problemas de mobilidade em até 20 anos, que é o prazo que a prefeitura tem para se adequar à Política Nacional De Mobilidade Urbana, mas essas mudanças já vão começar a acontecer de forma gradual ainda esse ano.

Jornal da Paraíba

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