O Festival de Inverno de Campina Grande não está à venda, por Myrna Maracajá

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© Myrna Maracajá*

“Hoje, parece que o capitalismo venceu todos os seus adversários, é um capitalismo sem medo”, alertou-nos o professor e escritor português Boaventura de Sousa Santos, no último mês de junho, durante a sua participação na Conferência Regional de Educação Superior da América Latina e Caribe. Boaventura tem, incansavelmente, discutido sobre o assédio neoliberal que vem sofrendo a educação. A partir de suas inquietações, gostaria de falar sobre o ASSÉDIO NEOLIBERAL À CULTURA.

Não é incomum que nós, coordenadores do Festival de Inverno de Campina Grande, sejamos assediados para vender o Festival de Inverno de Campina Grande. Sugerem, as aves agourentas neoliberais, que o Festival seja privatizado e que migre para o Parque do Povo. Decerto, acham que 30 dias de festa, shows, bebedeiras e comilanças ainda é pouco. Querem grandes nomes da cultura de massa, no palco do Festival de Inverno de Campina Grande, para poder “vender” melhor o nosso “produto”. Sugeriram até dividir o Parque do Povo, em uma parte onde haveria os shows e, a outra parte, seria um estacionamento pago, que gerasse lucro.

Na concepção desses experts, o que tem valor é a cultura que vende. Então, o Festival não “vende” bem e não consegue captar recursos, porque não oferece “mercadoria” de interesse da classe empresarial. A cultura tem se transformado em uma empresa, em uma mercadoria, tem que vender bem e vender muito. Alguns dos poucos festivais de arte que têm sobrevivido em nosso país, são festivais caça-níqueis, onde o artista paga para cantar, dançar e representar.

Sustentam-se, inclusive, de mostras competitivas, não demonstrando nenhum compromisso com o poder transformador e educador da arte. Esses marketeiros da cultura, fazem dela um bom negócio e só. Basta observar os festivais de dança competitivos, onde centenas de jovens aprendizes, crianças e adolescentes, pagam para dançar e mostrar os seus trabalhos. O que se produz nesses festivais? Um primeiro, segundo, terceiro lugar. Será que esses jovens levam consigo algo mais que troféus e medalhas?

Pois eu lhes digo: o Festival de Inverno de Campina Grande não está à venda. O seu perfil não é de festas e nem de competições. O nosso Festival não vai se curvar ao fetiche do mercado. Respeitem a história desse Festival, que se sustenta com dignidade há 43 anos. É o mais antigo do Nordeste e o único sobrevivente da Paraíba. Cadê o Festival de Artes de Areia? Cadê o Festival de Artes de João Pessoa? Por aqui, transitam os melhores e mais respeitados artistas da dança, música e teatro. Todos os anos, recebemos propostas advindas dos mais diversos Estados brasileiros. Os que por aqui passaram, desejam voltar e os que ainda não vieram, sonham em conhecer nosso Festival.

Um Festival que resistiu à ditadura, não irá se curvar ao capitalismo selvagem. As empresas que nos apoiaram e nos apóiam ao longo de todos esses anos, conhecem o perfil do Festival e apostam em nossa proposta ética, cidadã e social. Sabemos que paira sobre nosso país uma onda conservadora e reacionária, controlada pelo neoliberalismo. Sabemos também que a cultura e a educação são os principais alvos desse regime neoliberal, pois estes dois pilares da sociedade são os únicos verdadeiramente comprometidos com a produção de conhecimento crítico e independente.

Querem amordaçar os professores. Querem calar e censurar os artistas. Querem acabar com todo e qualquer espaço onde se possa ter um livre exercício do pensar. Fui obrigada a ouvir que o Festival de Inverno de Campina Grande está com os dias contados, pois não é papel do Estado patrocinar eventos como o nosso. Vejam que a lógica é mesmo desresponsabilizar o Estado e vender tudo: a nossa educação, a saúde, a cultura! Quem manda em nosso país é o mercado e os nossos políticos não passam de marionetes em suas mãos selvagens.

Aos que desejam a nossa morte, eu lhes digo que preferimos morrer de pé, com dignidade, a nos prostituir por alguns tostões. O desafio para nós, artistas, professores, intelectuais, loucos, sonhadores é articular resistência. Somos gratos aos artistas que embarcam conosco nessa “nau” e ajudam a colocar o Festival nos teatros, praças, ruas, igrejas, escolas, feiras e presídios. Somos gratos aos nossos patrocinadores e apoiadores que acreditam em nossa utopia e nos ajudam a torná-la realidade.

Lenine, que já esteve em nossos palcos, canta que “amor é pra quem ama”. Pois bem, o que nos move não é o lucro, mas o AMOR, em sua forma mais pura e despretensiosa. Seguimos amando há 43 anos, da forma que sabemos amar e da forma que nos é possível. Que o amor seja sempre o nosso guia.

* Psicanalista, professora doutora e pesquisadora em Gênero e Sexualidades

Redação Clip PB
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